O gene da felicidade

Recentemente li um artigo que saiu na Revista Veja (edição de 28 de dezembro de 2016), de Will Starr – escritor britânico.

Gostei tanto do texto, que resolvi escrever um post baseando-me nele e acrescentando minhas considerações. Usei inclusive o mesmo título, pois não encontrei outro mais adequado.


Como eu disse no post Felicidade existe?, desde muito cedo na vida me questiono sobre a existência da felicidade – ou não seriam apenas momentos de contentamento?


Será que podemos mesmo alcançar a felicidade plena e genuína em um mundo corrompido pelo pecado?

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Medicina genômica

A neurociência e a medicina genômica são atualmente as duas ciências mais avançadas da atualidade, com descobertas muito relevantes na área de saúde. 

Medicina genômica social

Segundo Will Starr, em 2007 foi feita uma pesquisa por John Cacioppo (professor de psicologia e neurociência comportamental da Universidade de Chicago), Steve Cole (professor de medicina da Universidade de Los Angeles) entre outros. Eles encontraram uma ligação entre a solidão e o comportamento dos genes (o texto não informa quais são os genes específicos das pesquisas).

O estudo, que está sendo repetido em escalas maiores, contou com a participação de 14 pessoas, das quais 6 sentiam-se isoladas socialmente e 8 não se sentiam assim.


Amostras sanguíneas foram recolhidas e o resultado foi significativo: nos solitários, a alteração nos genes aumentou o risco de doenças inflamatória e diminui a reação antiviral. ”Parecia que o cérebro desses indivíduos estava programado para associar solidão com perigo e deixar o corpo em estado defensivo.” – afirma Will Starr.


Segundo Cacioppo, ao ajudar a cicatrização de feridas e o combate de infecções, a sensação de perigo poderia ser boa, porém não se pode viver assim por muito tempo.


De acordo com Will Starr, “inflamações promovem o crescimento de células cancerígenas e a formação de placas nas artérias. Levam à incapacitação das células cerebrais, o que aumenta a suscetibilidade de doenças auto-degenerativas”. De acordo com Cole, “o estresse como reação exige “hipotecar nossa saúde de longo prazo em favor da sobrevivência a curto prazo.”


Hedonismo x Eudemonia

Em 2010, Steve Cole falou sobre seu trabalho em uma conferência em Las Vegas. Barbara Fredrickson, uma psicóloga muito conhecida da Universidade da Carolina do Norte estava na plateia e pensou o seguinte: se estados de estresse (como a solidão) alteraram o genoma de forma negativa, o que poderia ocorrer com experiências positivas?

Considerando que aspectos hedonistas (prazer imediato) e eudemônicos (propósito e sentido da vida) de bem estar já haviam sido relacionados à longevidade, à observação parecia plausível.


Então, Bárbara Fredrickson e Steve Cole iniciaram uma nova pesquisa. Ela acreditava que o hedonismo proporcionaria melhores resultados, por ser algo mais real e não abstrato como o propósito de vida da eudemonia. Ele estava cético em encontrar algo que conseguisse relacionar felicidade e biologia, pois já havia feito pesquisas nesse sentido com ioga, tai chi, meditação, etc. Mas os resultados obtidos foram nulos.


A pesquisa dos 2 cientistas foi feita com 80 pessoas e por muitos de seus trabalhos anteriores estarem relacionados ao sofrimento, Cole sabia o que procurava nas amostras sanguíneas.


Resultado impressionante

No final, descobriu-se que as alterações genéticas no eudemonismo e não no hedonismo.  A pesquisa foi repetida 3 vezes em 2013, com o mesmo resultado.

A felicidade eudemonica proporciona menos inflamações e maior reação antiviral. De acordo com Cole, “os achados mostram que a falta de felicidade eudemônica pode ser tão prejudicial quanto o cigarro ou a obesidade.”


Considerando o resultado negativo do aumento das inflamações citadas anteriormente, percebemos o quanto o senso de propósito e de pertencimento são importantes.

 

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Conclusão

Precisamos estar conscientes da importância do crescimento contínuo. Acredito que as pesquisas acima possam ser um “norte” para as nossas decisões de curto, médio e longo prazo, pensando inclusive no bem-estar e na saúde de forma geral.

Precisamos ter um propósito maior na vida, algo como uma missão. E também projetos menores, como as tarefas e atividades diárias. Talvez esses sejam os degraus de nossa existência – alguns de contentamento ou felicidade, alguns de ajustes, alguns de tristeza, mas todos com um único objetivo: a excelência em nossas ações, projetos e atividades cotidianas. A excelência como pessoas.


Você já reparou como se sente quando foi muito bem sucedido em algo que fez, mesmo que seja uma atividade não tão prazerosa ou significativa para o seu propósito maior, como pintar uma casinha de cachorro ou um quarto? Ou organizar um armário ou uma horta? Provavelmente tenha se sentido muito bem, com aquela sensação de missão cumprida.


Acho que a eudemonia é isso: faz com que nos sintamos vivos de verdade.


Precisamos aprender a fazer o nosso melhor sempre.

Como disse Mário Sérgio Cortella: “Precisamos fazer o nosso melhor com as condições que temos hoje para que quando tivermos melhores condições, possamos fazer melhor ainda”.

 

Créditos das imagens: Pixabay

 

 

8 thoughts on “O gene da felicidade”

  1. Qualquer coisa que ao fazer, ou melhor, terminar a tarefa e nos dê satisfação, realização, faz bem e nos deixa felizes.Assim, de momento e ação em ação, podemos ser e viver a felicidade! bjs, chica

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  2. Assunto intrigante, Rosana, muito bem colocado.

    A princípio, eu duvido um pouco dessas pesquisas sobre felicidade. Acho meio abstratas, são dependentes de respostas humanas de questionários (que podem ter vários vieses) e são feitas com poucas pessoas através de correlações, que nunca podemos afirmar que são, realmente, causa e efeito.

    Mas minha percepção do assunto é que os hedonistas são candidatos à pior situação mesmo. O longo prazo não deve causar bons fluidos para imediatistas. Vou checar mais tarde, mas eudemonia seria mais um estado, menos uma ação. A ação que talvez leve a esse estado tem muito a ver com a aplicação de "serenidade", ou talvez, até "conservadorismo", que seria mover-se devagar, sem prejudicar o que conquistamos até então e conquistando novos objetivos. Acredito que tem-se uma "soma" de virtudes agindo dessa maneira. Algo como "é melhor a direção correta do que a velocidade".

    O estoicismo, citado acima pelo Scant é uma das formas de chegar a esse estado. O Budismo utiliza muito de seus ensinamentos. E eu comentei algo também em uma postagem que o prazer está associado À noção de tranquilidade, marcas do estoicismo. Enfim, é um grande assunto rsrs

    Abraço!

    Ah, achei o link aqui: https://www.viagemlenta.com/2016/11/quando-vergonha-ofusca-o-real-prazer-e-lesa-sua-independencia-financeira.html

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  3. André,

    Gostei do seu comentário, agregou muito valor ao meu post.

    "A ação que talvez leve a esse estado tem muito a ver com a aplicação de "serenidade"…
    Exatamente.
    Hoje, o que vemos é o excesso de ação e acumulação de bens.

    Acredito que seja mais adequado darmos menos passos na vida, como você disse (é melhor a direção correta do que a velocidade), mas que sejam os mais adequados possíveis para encontrarmos o nosso propósito. Não que acertaremos sempre, muito pelo contrário, mas acredito que com menos distração e consumo, podemos chegar mais perto dos nossos objetivos verdadeiros, que estão de acordo com nossa essência.

    Vou ler o seu post, agradeço pela dica. 🙂

    Boa semana!

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