Geração analgésico

Vivemos em uma sociedade que parece ter grande aversão à dor física, como se essa situação fosse rara, anormal ou incomum.

A realidade é que estamos cada vez mais intolerantes a dor, seja ela de ordem física ou psicológica.

Há pessoas que ao menor sinal de que a dor está chegando, correm para os analgésicos a fim de que algum alívio seja alcançado, ignorando o fato de que se a causa não for removida, a dor sempre voltará – e dependendo do problema, será cada vez mais intensa e duradoura devido a progressão da doença que a causou.


pessoa-tomando-muitas-pilulas
Será que realmente precisamos disso?

 

A felicidade com obrigação

Se na parte física a dor é desconfortável e atitudes são tomadas para que ela vá embora, na parte emocional ocorre o oposto.

Sentimentos como tristeza, angústia, falta de esperança, ansiedade entre outros são muitas vezes negados, pois vivemos na sociedade da felicidade ilusória, irreal e artificial, na qual não há espaço para emoções consideradas negativas ou desconfortáveis.

Apesar da insistência e perseverança, todo esforço feito no sentido da negação será em vão e muito frustrante, pois na estrada da vida não há apenas ruas impecavelmente pavimentadas, mas também muitas ruas esburacadas e até sem asfalto – sendo que as duas últimas existem em maior quantidade para a maioria das pessoas.

Negar essa realidade não vai adiantar, pois os problemas não deixarão de existir por isso. Mas na sociedade em que vivemos, a tristeza e os sentimentos afins são discriminados, como se não fizessem parte da vida…

 

A tristeza é necessária

Ninguém gosta de estar triste, mas essa é uma característica inerente à condição humana. Além disso, podemos aprender ricas lições com os sentimentos desagradáveis, como:

– Maior flexibilidade para lidar com frustrações.


– Aprender a esperar.


– Aprender a ouvir e a dizer “não” quando necessário.


– Ter consciência de que a impermanência faz parte da vida.


– Compreender que nem tudo (ou quase nada) é do jeito que a gente quer e que podemos controlar muito menos do que gostaríamos que estivesse realmente sob o nosso controle.


– Aprender a lidar de forma madura e racional com o fato de que muitas vezes mesmo fazendo o nosso melhor, as coisas simplesmente não saem como esperado. Ou que dá tudo errado mesmo.


– Perceber que quando temos a sensação de que algo está errado, é bem provável que esteja mesmo.

Nenhuma das situações descritas acima proporcionará sentimentos agradáveis, como alegria ou bem-estar. Entretanto, negar tais fatos não terá nenhum proveito, enquanto procurar extrair alguma lição será muito útil.

Conseguiu compreender como as situações adversas podem ser de grande utilidade?

 

pessoa-de-bracos-abertos-ao-por-do-sol
Não negar os momentos negativos pode ser libertador

 

Conclusão

Vivemos na época da geração analgésico, que possui baixa tolerância à dor. Porém, tal atitude resulta em muitos prejuízos pessoais e sociais, pois além de impedir o crescimento pessoal, ocasiona também muitos desentendimentos, confusões desnecessárias e discussões acaloradas, que algumas vezes transformam-se em tragédias.

Todos nós queremos ter uma vida boa e agradável, mas nem sempre isso é possível. Entretanto negar a realidade só piora a situação, pois tal atitude nos impede de aprender muitas lições e/ou mudar de rumo.


Assim como a alegria, a tristeza também é necessária.


Assim como o sorriso, as lágrimas também são necessárias.


Assim como o início de novas etapas na vida, o encerramento das etapas anteriores também é necessário, apesar de muitas vezes ser algo bem desconfortável.


Assim como dizer “sim” e deixar a outra pessoa feliz, dizer “não” também é necessário para impor limites e demonstrar para si mesmo a importância e a presença do auto-respeito.


A vida tem altos e baixos. 

Aprender a lidar com isso da forma mais saudável e inteligente possíveis é um grande passo que nem todos conseguem dar. Mas é algo essencial na trajetória daqueles que querem mais sabedoria, tranquilidade e paz na vida.

Além disso, procurar trilhar por esse caminho é um grande sinal de maturidade emocional.

 

 

Créditos da imagem: Free Digital Photos

 

        

35 thoughts on “Geração analgésico”

  1. Oi Rosana, sabe que por todos os motivos que você listou no seu post, é que eu deixo minhas filhas se frustrarem. Enquanto a maioria dos pais dão tudo para suas crianças para justamente não sofrerem, não ficarem tristes, eu não ligo quando minhas filhas se frustram, porque eu sei que é importante para o futuro delas. É dessa forma que elas entenderão de que tudo bem não ser feliz todos os dias. Beijo.

    Reply
  2. Fala Rosana, tudo bem?
    Frustrações sejam leves ou profundas fazem parte da vida e são inevitáveis, por outro lado quando nos deparamos com coisas, pessoas ou situações como elas verdadeiramente são temos a oportunidade de interagir com isso de forma verdadeira e sem máscaras e isso é um ponto positivo, embora lidar com verdades nem sempre seja fácil e menos ainda confortável.

    Acho que a internet vem contribuindo pela busca da "vida perfeita" ou pelo menos pela ânsia em mostrar uma vida perfeita. E isso não é culpa da internet em sí, mas sim da forma como suas ferramentas (especialmente redes sociais) são usadas. A vaidade e a necessidade de aprovação, aceitação é evidente nesses ambientes. Já não basta pessoas se mascararem no seu ambiente de trabalho ou outros lugares de conívio, ainda tem que se preocuparem com sua imagem na internet.
    Ao meu ver é um peso a mais.

    Contribui para isso também os motivadores, coachs etc, que reprimem que as pessoas expressem suas emoções negativas a incentivam em muitos casos que elas forçem uma personalidade confiante, incansável, feliz etc, mesmo que por dentro essas pessoas estejam no bagaço.
    Ninguém precisa sair por aí reclamando de tudo pra todo mundo, tem coisas que é bom guardar pra sí, mas viver fingindo uma felicidade inexistente ou tentando ser visto como "vencedor" pelos demais pode ser muito cansativo e extremamente artificial.
    As pessoas devem ter espaço para ser quem são, senão o tempo todo, ao menos ter liberdade de sentir e se expressar quando necessário sem serem prontamente reprovadas por não estarem seguindo um padrão emocional.
    As nossas expectativas e as expectativas de terceiros sobre nós podem se manifestar de diversas formas e tem que se ter muito jogo de cintura com isso.
    Desde a nossa aprência, forma física, conquistas amorosas, materiais, nossa personalidade, hábitos, tudo é colocado nessa balaça da vida, a tudo de certa forma são atribuídos pontos por nós mesmo e pelos outros.

    Ou buscamos um equilíbrio, buscamos perdoar a nós mesmo pelos nossos erros, limites e imperfeições, saibamos ignorar o que deve ser ignorado, mudar o que deve ser mudado ou temos em nossas vidas um cenário propício para o desenvolvimento dos mais diversos problemas emociaonal ou até psicológicos, que por fim prejudicam nossa qualidade de vida.

    É fácil? nem sempre. Mas tem outro jeito?

    Reply
  3. Excelente texto, Rosana!

    De fato, a geração atual quer tudo inodor. As dores fazem parte do processo de crescimento e evolução natural.

    Ao invés de evitar a dor, as pessoas têm que enfrentar a dor. Por isso que há tanta gente que gosta de viver na zona de conforto.

    Abraços!

    Reply
  4. Olá Rosana!

    Muito bom, penso exatamente como você. Acredito que parte dessa negação da dor vem da não aceitação da realidade. Queremos "mascarar" as coisas de forma que as aceitamos da forma que queremos. Mas elas não são da forma que queremos. Aí, o estrago vem na forma de derrotismo, inconformismo e até depressão…

    Sobre os remédios, penso biologicamente sobre o tema: é importante aceitar as eventuais dores até para "dar um tempo" para nosso organismo se defender. Cada vez mais as pessoas produzem menos dopaminas e serotoninas porque não dão chance a ele. E a dependência se instala…

    Rosana, aproveito para dizer aqui que a migração do meu blog completou-se, mas tive problemas nos comentários (não migraram – quase 1500!) onde você sempre esteve presente. Ainda tenho esperanças que isso ocorra, mas até agora nada…

    O feed também mudou. Se as pessoas acessavam pelo Feedly ou outro leitor (até mesmo por blogrolls) não verão a atualização se a mudança não for feita.

    O novo feed é https://www.viagemlenta.com/feed.

    Abraço e obrigado!

    Reply
  5. Yuka,

    Interessante a maneira como lida com a questão com suas filhas, principalmente por vivermos em uma época na qual atender os desejos dos filhos tornou-se muito mais importante do que deveria ser. Não é por acaso que a imaturidade emocional está cada vez mais presente na sociedade.

    "É dessa forma que elas entenderão de que tudo bem não ser feliz todos os dias."
    Parabéns por sua atitude! Isso é muito bom, ainda mais agora, quando a felicidade tornou-se quase uma obrigação. E dessa forma, acabamos ignorando a importância e a necessidade da tristeza. Escrevi um post sobre esse tema, se quiser ler:

    Quando a tristeza é necessária – Simplicidade e Harmonia

    Abraços,

    Reply
  6. Anônimo,

    Gostei do seu comentário. Como sempre, agregou muito valor ao tema.

    "lidar com verdades nem sempre seja fácil e menos ainda confortável."
    Momentos como esse proporcionam grandes e significativos aprendizados.
    Muitas vezes a verdade dói. Mas é ela que nos fará crescer. Por isso, encarar tais situações é uma atitude muito sábia, apesar de desconfortável.

    "Acho que a internet vem contribuindo pela busca da "vida perfeita" ou pelo menos pela ânsia em mostrar uma vida perfeita."
    A felicidade como obrigação tem tornado as pessoas mais infelizes do que deveriam ser, pois quem consegue manter aquele padrão de felicidade irreal e ilusória por muito tempo?
    É como você disse: é algo cansativo e que no final das contas, não resulta em nada de positivo na vida.

    Gostei muito do penúltimo parágrafo, ficou perfeito. Sem equilíbrio e sabedoria para a aceitação, as coisas realmente se complicam. Fácil não é, mas muito necessário para o nosso próprio bem estar.

    Boa semana,

    Reply
  7. Roselia,

    O corpo fala… e como fala! Mas na maior parte do tempo, não estamos atentos aos seus "gritos". Por isso, precisamos de muita sabedoria e atenção.

    Que bom você tomar analgésico só em último caso! Em um mundo que tem grande aversão a dor, acho que somos uma minoria.

    Boa semana,

    Reply
  8. André,

    Aceitar a realidade como ela é, sem minimizar fatos relevantes é essencial para o próprio desenvolvimento. Tentar mascará-la só acabará adiando os problemas.

    "Sobre os remédios, penso biologicamente sobre o tema: é importante aceitar as eventuais dores até para "dar um tempo" para nosso organismo se defender. Cada vez mais as pessoas produzem menos dopaminas e serotoninas porque não dão chance a ele. E a dependência se instala…"
    Exatamente! O corpo não tem tempo de se defender de forma adequada com tantas medicações desnecessárias. Muitas vezes, alimentação, hidratação e descanso adequados são tudo o que o corpo precisa para a restauração da saúde.

    Seu novo blog ficou muito bom, parabéns! Depois vou ver com mais calma.
    Pena os comentários não terem migrado ainda, mas se essa opção faz parte do que foi contratado, talvez demore algum tempo, até por que são milhares de comentários. Vou anotar seu novo feed.

    Abraços,

    Reply
  9. Olá, S&H!

    Excelente post, você realmente conseguiu tocar num assunto bem sensível na nossa sociedade que hoje em dia glorifica a produtividade e prefere "mascarar" os sintomas do que tratar a causa.

    É interessante notar que, ao procurar analgésicos em excesso, estamos essencialmente glorificando o hedonismo já queremos minimizar o desconforto causado pela dor. Infelizmente, acho que aqui temos que traçar algumas exceções para dores intensas e crônicas, para qual a dor é mais do que apenas um desconforto, mas sim um desabilitante real.

    Espero nunca chegar a um patamar desses, e por isso me trato diariamente com exercício e vida saudável. Mas para os menores desconfortos, prefiro tratar com estoicismo.

    Abraços e seguimos em frente!

    Pinguim Investidor
    https://pinguiminvestidor.com

    Reply
  10. Olá Rosana! Obrigado!

    Então, é uma falha do Disqus mesmo. Já fiz todo o processo de migração e nada. Estou cansando de ficar dependente dele. Provavelmente, vou retirá-lo do site se os comentários não chegarem até esse final de semana.

    Abraços!

    Reply
  11. Pinguim Investidor,

    Como você disse, há dores que realmente precisam de algum alívio em forma de medicação, mas o próprio corpo consegue lidar com muitas delas sozinho, desde que atitudes adequadas sejam tomadas, como vida saudável e exercícios físicos que você citou.

    Em relação ao hedonismo, infelizmente tem se tornando muito mais importante do que deveria ser na sociedade atual…

    Bom saber que gostou do meu post. 🙂

    Abraços,

    Reply
  12. Então, Rosana, é uma possibilidade. Ainda nada… O sistema deles é muito ruim e não confiável.

    Ainda estou esperando porque se, eles vierem, parece que o WP salva em sua base de dados e eles podem depois ficar no histórico. Por isso estou tentando manter um pouco mais…

    Abraço e bom final de semana!

    Reply
  13. Gosto do seu blog é legal pois sempre tem reflexões.
    Esta última me remeteu à geração que considero geração do "merthiolate que não arde".
    Antigamente, quando criança, eu ralava o joelho e minha mãe passava aquele merthiolate que ardia horrores. Não sei o que era pior, ralar o joelho ou sentir a dor daquele remédio. Mas acho que aquilo nos tornava mais fortes.
    Hoje as crianças não sentem dor, não ouvem "não", não possuem limites. Isto já vem de algum tempo. O que isto tem gerado segundo os especialistas? Jovens que não suportam os "nãos" da vida. Isto está gerando índices alarmantes de depressão e suicídio entre jovens e até mesmo crianças. Outro efeito negativo são os assassinatos. "Jovem não aceita o fim do namora e mata a namorada". Tem aumentado muito este tipo de crime. Aqui em casa estamos atentos a isto. Falar não é necessário. Só tá faltando o "merthiolate que não arde" rs
    Bom domingo!

    Reply
  14. Não sei pq me lembrei da Marylin Monroe com esse post.
    Eu gosto muito dela e ela estava sempre bebendo, com comprimidos, com analgésicos, com antidepressivos.
    Apesar de tudo, acho que ela foi uma pessoa incompreendida e que buscou ser feliz por caminhos muito difíceis.
    Essa geração analgésico é bem antiga, acho que desde que inventaram a Aspirina que isso começou, junto com o começo dos laboratórios farmacêuticos, estão sempre inventando remédios para doenças que a medicina sempre vem inventando. A pressão financeira na saúde é enorme, pois saúde é comércio, então estão sempre inovando em tudo que é área pra gente gastar, principalmente com estética e cosméticos.

    Um abraço Rosana!

    Reply
  15. Uó,

    Boa lembrança. Desde cedo a gente aprendia sobre a dor.

    Infelizmente, estamos mesmo na época do merthiolate que não arde. E os resultados são exatamente os que descreveu, pois o crescimento fica muito prejudicado em cenários onde os "nãos" da vida não são aceitos.

    Bom saber que gostou do meu post! 🙂

    Reply
  16. Frugal,

    "estão sempre inventando remédios para doenças que a medicina sempre vem inventando."
    Uma pena tudo isso… A humanidade poderia ser muito melhor se as criações fossem mais no sentido de proporcionar uma vida mais significativa. E não criar problemas para que soluções precisem ser desenvolvidas.

    Sempre a indústria tenta arrumar um jeito de obter mais lucros – não é à toa que é uma das mais prósperas do mundo.

    Bom ter ver por aqui, Frugal!

    Reply
  17. Sem dúvidas. Encarar as adversidades e as dores da vida vai te deixar mais forte e "cascudo" para enfrentar qualquer coisa que a vida jogar contra vc. Muito bom post.
    Abcs

    Reply
  18. Maravilhoso texto e apesar de ser da liga anti remédios, o que me ajuda, pois se realmente preciso eles fazem efeito, vejo tantos com gavetas cheias deles de A a Z,rs… Pena! beijos, adorei ler! chica

    Reply
  19. André,

    Tenho certeza de que conseguirá encontrar a melhor solução. 🙂
    Acho que vou fazer alguns testes mais profundos no WP gratuito. Quem sabe eu migre também.

    Em relação a caixa de comentários do WP, o que percebo é que no Blogger os comentários são postados automaticamente. No WP está ocorrendo um atraso que não ocorria antes, mesmo nos planos pagos – seu caso, do II e tantos outros que não necessitam de moderação. Espero que solucionem logo essa questão.

    Boa semana!

    Reply
  20. Chica,

    Eu também faço parte da "liga anti remédios". E quando necessário, fazem efeito, como você falou.
    Infelizmente muitas pessoas têm as gavetas cheias de todo tipo de medicamento… E o mais triste é que acham tudo isso muito normal.

    Bom saber que gostou do meu post, chica! Agora que terminei o template do blog, estou voltando a visitar os blogs que acompanho.

    Boa semana,

    Reply
  21. É mesmo! Actualmente as gerações de agora, não sabem lidar com a dor, nem com a frustração… vivemos na era da comunicação… mas os problemas relativos a socialização, estão a aumentar exponencialmente… comunicamos… e contudo, cada vez mais os indivíduos, parece que se entendem cada vez menos, entre si… e depois a comunicação, com as respectivas redes sociais… veio desenvolver o mundo das falsas aparências… em que apenas se actua num sentido… de que possa parecer bem numa imagem qualquer…
    Mais um tema bem interessante, por aqui!… Gostei imenso do post!
    Beijinhos
    Ana

    Reply
  22. Ana,

    Na era da comunicação, as relações pessoais estão cada vez mais distantes… O que era para aproximar, tem distanciado ainda mais as pessoas. Por isso, precisamos estar muito atentos sobre o assunto: para qual lado estamos caminhando?

    Um bom final de semana!

    Reply

Leave a Comment